ADULTOS "REBONS" E OS FANTASMAS DO SISTEMA
- Vivian Favero

- 30 de mai. de 2025
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Eles são ótimos. Responsáveis, pontuais, empáticos, prontos para ajudar. Pagam boletos em dia, entregam relatórios antes do prazo, cuidam de todos ao redor. São os que "dão conta", até demais.
Mas por dentro… Ah, por dentro ainda vivem tentando agradar um pai que nunca elogiou. Ainda esperam o olhar da mãe que estava ocupada demais para vê-los. Por dentro, esses adultos rebons são crianças exaustas, tentando sobreviver em corpos grandes.
Adultos rebons (está uma doce alusão a REBORNS) não gritam, mas somatizam. Não dizem "não", mas se retraem. Sorriso no rosto, caos no estômago. Funcionam bem… como máquinas emocionais que aprenderam que amar é servir, que existir é compensar, que viver é se calar.
São os filhos que mediaram brigas, consolaram irmãos, protegeram a mãe. Tornaram-se os terapeutas da própria família antes mesmo de saber o que era um trauma. Leais ao sistema, carregam dores que não lhes pertencem, como heranças silenciosas.
Eles não sabem, mas foram programados para manter o equilíbrio familiar. Se não fossem "bons", o caos viria. Se não cuidassem de tudo, alguém quebraria. E assim, perderam o direito de ser imperfeitos.
No consultório, no espelho, no silêncio — surge a pergunta: "Quem eu seria se não precisasse agradar tanto?"
É aí que começa a cura. Quando o adulto rebon reconhece que não precisa mais salvar ninguém, que pode falhar, descansar, chorar… Que a criança dentro dele merece colo, não mais tarefa.
Porque ninguém nasceu para ser função. Nascemos para ser inteiros.



Eu fui essa filha que mediou brigas, consolou irmãos, protegeu a mãe. Tornei-me terapeuta da minha própria família e me drenei inteira. Fui ponte, fui porto seguro, fui colo. Mas para mim mesma eu nada tinha. Mas ainda bem que acordei a tempo de me salvar. De dar a mim mesma o que nunca recebi, pois estava ocupada demais olhando para um lugar que não era o meu...